Nas últimas décadas, consolidou-se a ideia de que o mundo vive uma “transição energética”. A expressão sugere substituição estrutural: uma fonte dominante seria abandonada e trocada por outra. A história recente mostra algo diferente.
O que ocorreu foi expansão cumulativa e diversificação. A demanda global por energia cresceu de forma persistente, impulsionada por urbanização, industrialização, aumento da renda e, mais recentemente, digitalização intensiva da economia. Diante disso, a oferta — fóssil e não fóssil — simplesmente se expandiu para atender a essa pressão estrutural.
Figura 1: Evolução do consumo global de energia por fonte desde meados do século 20

De fato, houve diversificação energética. Desde antes dos anos 1950, todas as fontes relevantes cresceram em termos absolutos. O carvão não desapareceu com o petróleo. O petróleo não foi suprimido pelo gás. O avanço das renováveis tampouco eliminou os fósseis. E o sistema energético global se ampliou como um todo.
Esse padrão revela um erro recorrente na formulação de políticas públicas: concentrar o debate na oferta e ignorar a variável central que move o sistema — a demanda. Enquanto se discute quais fontes restringir ou incentivar, a demanda continua avançando, impulsionada por infraestrutura, transporte, saneamento, refrigeração, saúde, educação e inteligência artificial. Se a demanda cresce, a oferta se reorganiza. Não há atalhos para essa realidade física.
Para compreender essa dinâmica, é útil recorrer à Curva de Kuznets. Nos anos 1950, Simon Kuznets mostrou que o crescimento não produz efeitos lineares. Nos estágios iniciais, a desigualdade aumenta; apenas depois de amadurecimento institucional começa a diminuir. O crescimento primeiro cria tensão, depois gera mecanismos de correção.
Essa lógica aparece também na chamada “Curva de Kuznets do Coração”, em trabalho que publicamos[1].
Figura 2: Relação entre PIB per capita e pressão sanguínea sistólica média (1980–2008) para países selecionados

Em países de baixa renda, o aumento do PIB esteve associado à elevação da pressão arterial média. Mudanças rápidas no padrão de consumo ocorreram antes da consolidação de sistemas de saúde e prevenção. Já em economias de alta renda, a relação se inverteu: crescimento passou a vir acompanhado de melhor governança, educação e infraestrutura, reduzindo riscos.
O ponto central é estrutural: desenvolvimento reorganiza o metabolismo social antes de produzir equilíbrio.
O mesmo pode ocorrer com a energia. Afinal, há forte correlação entre PIB e consumo energético. Nos estágios iniciais, países constroem estradas, portos, redes elétricas e indústrias pesadas. O crescimento exige insumos físicos. Essa é a fase ascendente da curva energética.
A variável capaz de reorganizar essa trajetória é a intensidade energética — a quantidade de energia necessária para gerar uma unidade de PIB. Economias com alta intensidade consomem muito para produzir riqueza; economias mais eficientes geram mais valor com menos energia relativa. Países maduros reduziram essa intensidade nas últimas décadas; economias em industrialização ainda operam com níveis mais elevados.
Mesmo quando a intensidade cai, o consumo absoluto pode continuar subindo se o PIB crescer mais rápido. É o que ocorre globalmente. Por isso, a ideia simplificada de “transição” não descreve adequadamente a realidade. O mundo não substituiu fontes; acumulou-as para sustentar uma demanda crescente.
Se as políticas públicas continuarem focadas predominantemente na oferta, o resultado será tensão entre crescimento e restrição. Países na fase ascendente não podem reduzir consumo absoluto sem comprometer desenvolvimento. O caminho não é negar crescimento, mas antecipar eficiência.
Modernização tecnológica, redução de perdas, planejamento urbano racional e investimento em ciência permitem reduzir intensidade energética. Energia firme e previsível é elemento estratégico nesse processo.
O desafio do século 21 não é interromper o desenvolvimento, mas organizá-lo. Não se constrói prosperidade restringindo energia, mas tornando-a mais produtiva. Países que entendem isso ampliam sua autonomia; os que ignoram permanecem vulneráveis. Energia não é apenas insumo — é poder estrutural. Estratégia energética não é retórica ou slogan. É fundamento de soberania.
[1] https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305750X20300796?via%3Dihub.




