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JOTA Jornalismo – FeedAndré Corrêa do Lago: indústria fóssil já redireciona investimentos para outros setores​Vivian Oswald

O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, afirma que a indústria de combustíveis fósseis já reage de forma inteligente à pressão da transição energética, deslocando investimentos para frentes como a petroquímica e se ajustando ao avanço da eletrificação em mercados como China e Índia, que devem reduzir bruscamente a demanda por gasolina nos próximos anos.

“Os fósseis não vão ser amigos de um processo que, de certa forma, clama pela eliminação, mas há usos diferentes”, diz, em entrevista exclusiva ao JOTA, durante a Conferência dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC (SB64), em Bonn, na Alemanha. Ainda que 80% da energia mundial dependa hoje de combustíveis fósseis, segundo ele, essa dependência não impede a transição, mas exige que ela seja feita de forma gradual e setorialmente diferenciada.

A entrevista ocorreu na etapa intersessional entre a COP30, realizada em Belém, e a COP31, marcada para novembro em Antália, na Turquia. Para André Corrêa do Lago, esse período deve ser usado para acelerar a implementação dos compromissos já firmados, foco que, segundo ele, foi decretado naquela conferência diante de 30 anos de negociações e de um acúmulo de decisões que, muitas vezes, nem o próprio setor privado conhecia.

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André Corrêa do Lago também comentou as oportunidades econômicas abertas pela agenda de implementação, os efeitos da ausência dos Estados Unidos nas negociações climáticas e os riscos de desigualdade ligados à exploração de minerais críticos. Confira a entrevista completa abaixo.

Vivian Oswald: Estamos na SB64, a última grande reunião técnica antes da COP31, num momento em que tudo parece precisar avançar com pressa diante do cenário geopolítico atual. Em que fase estamos da implementação, e que oportunidades esse contexto abre?

André Corrêa do Lago: Estamos muito contentes com a recepção ao modelo que o Brasil propôs para essa fase das COPs. Foi em Belém que decretamos que o foco das próximas conferências deveria passar a ser a implementação, e não a negociação. Isso virou uma vantagem, há muito já aprovado para se construir em cima.

Por isso entramos nessa fase. A palavra-chave, que já era a daquela conferência, é urgência. O tempo para manter a temperatura sob controle é cada vez mais curto, e o que estamos fazendo certo ainda não está na escala necessária.

O cenário atual torna o mapa do caminho para se afastar dos fósseis, compromisso assumido em Belém, ainda mais relevante, mesmo sem ser negociação obrigatória na ONU? Como o setor privado se envolve nele?

Em Belém, conseguimos avanços significativos na negociação, mas também estruturamos agendas de ação em torno da implementação do balanço geral do Acordo de Paris, usando-o como base para agir. O setor privado entendeu bem essa lógica. Uma terceira frente foi adiantar dois temas que estavam meio enterrados, o afastamento progressivo dos combustíveis fósseis e o desmatamento.

Os dois avançam com base em informações de países, organismos internacionais e do próprio setor privado, e o interesse é cada vez maior. A situação geopolítica é ruim para o mundo, mas, por outro lado, chama mais atenção para a necessidade de superar essa crise, e a discussão em torno da implementação já dá uma previsibilidade importante para o setor.

Onde estão as principais oportunidades para o setor privado? E o de-risking, tema no qual o senhor vem insistindo desde o BRICS do ano passado, ligado a seguros e financiamento?

A dimensão econômica do combate à mudança do clima ganhou peso desde o G20 brasileiro e se fortaleceu no BRICS. Há uma percepção dos custos da mudança do clima frente à inação, quanto isso custa para seguradoras, para os orçamentos estatais em desastres como o do Rio Grande do Sul, onde a maior parte dos recursos usados veio da União, e a perda de 5% a 8% do PIB em países atingidos por eventos extremos.

Também há grande potencial em investimentos de infraestrutura urbana, de interesse do setor privado e com efeito positivo na adaptação da economia. Não se trata de tratar a mudança do clima como oportunismo, mas de alinhar interesses, seguradoras cada vez mais conscientes do risco, inclusive em regiões dos Estados Unidos onde já não se consegue mais segurar um imóvel, novas tecnologias e a ideia do acelerador, um sistema para eleger anualmente duas ou três iniciativas capazes de gerar um efeito dominó positivo na adoção de soluções climáticas.

Com os renováveis cada vez mais baratos, mas os fósseis ainda difíceis de abandonar dado o volume de investimento envolvido, qual papel as petroleiras vão ter na transição?

Ainda têm um papel importante, porque 80% da energia mundial depende hoje de fósseis. Mas há avanços rápidos, estava todo mundo falando nos corredores sobre eletrificação, tema forte na agenda de ação de Belém. Eletrificação significa coisas diferentes, troca por carros elétricos em alguns países, acesso à eletricidade em países em desenvolvimento. O desafio é juntar qualidade de vida, redução de emissões e o papel que os fósseis ainda têm nisso. As estatísticas que estamos levantando para o mapa do caminho mostram que essa dependência econômica dos Estados em relação aos fósseis pode ser, ela mesma, o maior obstáculo à transição, dado o tamanho da infraestrutura mundial construída em torno deles.

Não dá para imaginar desmontar algo que, ainda que de forma imperfeita, funciona para a maioria das pessoas. Mas essa crise, com preços instáveis e custo de guerra, deixou mais evidente o tamanho do risco de seguir dependendo dela.

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Como fazer os fósseis serem amigos desse processo de transição, sem gerar muita resistência?

Os fósseis não vão ser amigos de um processo que, de certa forma, clama por sua eliminação, mas há usos diferentes. A maior parte do petróleo vai para gasolina e diesel, então, se China e Índia, os maiores mercados de automóveis do mundo, migram para carros elétricos, isso já indica uma queda brutal na demanda por gasolina. Por isso, a indústria fóssil está direcionando investimento para outros setores, como a petroquímica, que hoje usa cerca de 15% do petróleo extraído e pode produzir com menos emissões do que outras indústrias. É uma reação inteligente, já que essas empresas têm capital, conhecimento e presença em diversos mercados para isso.

E essa movimentação não depende dos Estados Unidos, porque a agenda de ação não exige consenso, é uma forma de empresas e estados participarem independentemente da posição de qualquer governo.

Como o senhor vê essa não participação dos Estados Unidos, que cortaram subsídios a renováveis mas continuam investindo pesado em fósseis?

É grave que nenhum outro país tenha saído do Acordo de Paris como os Estados Unidos fizeram, nem mesmo seus aliados mais próximos. Alguns analistas aqui comentam que é como se o governo americano estivesse contra tudo que é científico ou progressista, da vacina ao clima, e por isso seria quase natural que não estivessem presentes nessa agenda. Mas o grupo de estados americanos que ainda apoia o Acordo de Paris representa mais da metade do PIB do país, e as grandes empresas americanas, por serem multinacionais, precisam manter padrões globais independentemente do governo federal. Não precisamos dos Estados Unidos para negociar, precisamos que a economia americana se mova na direção certa.

Então a previsibilidade da agenda de ação acaba prevalecendo, e quem ficar de fora corre o risco de ficar atrás?

Exatamente.

Os minerais críticos viraram um tema geopolítico relevante na transição, importante para novas tecnologias e investimentos. Não correm o risco de se tornar um novo fator de desigualdade? Isso não deveria ter mais peso nas negociações de uma transição justa?

Os minerais críticos são centrais para os esforços de transição, e o temor é que práticas ruins de outros ciclos econômicos se repitam aqui. Por isso, precisamos garantir que essa nova economia seja mais justa e dê mais peso à dimensão da justiça climática do que as fases econômicas anteriores, e a transição justa é um dos temas mais importantes lançados nessa negociação.

Existe o risco de uma nova forma de neoliberalismo e de exploração indevida desses minerais. Mas tudo pode ser bem feito, como os biocombustíveis brasileiros, fruto de décadas de experiência. Defendo que boa legislação e boas práticas sejam divulgadas e estimuladas, e essa é uma área em que o Brasil tem liderança.

Qual é o principal desafio daqui para frente?

Sinto um espírito geral positivo nos corredores. No ano passado, aqui em Bonn, a tensão era imensa, com frustração no mundo em desenvolvimento sobre os rumos do financiamento definidos em Baku. Belém devolveu essa confiança, e por isso esta reunião está mais tranquila que a do ano passado, quase irônico, já que negociamos num momento difícil e agora os outros herdam uma situação bem melhor.

Mas isso não significa que já saibam exatamente como vão conseguir esse dinheiro. O principal desafio agora é manter esse espírito para fortalecer as três dimensões, negociação, agenda de ação e financiamento. Os países desenvolvidos têm encontrado formas cada vez mais criativas de justificar as dificuldades em cumprir suas obrigações de financiamento.

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